domingo, 3 de junho de 2012

Liberdade - Rubem Alves

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Somente os pássaros engaiolados são dignos de confiança. Pássaros engaiolados não fogem. Mas, ao se engaiolar o pássaro, perde-se a beleza do seu vôo, que era o que se amava.
Pássaros engaiolados transformam-se em patos gordos. 
Patos gordos são dignos de confiança: nem podem nem querem voar. 
Os espaços vazios não os fascinam. Nunca olham para cima, só para baixo. 
Nem sabem da existência do céu. 
Já os pintassilgos são indignos de confiança, sabem voar. 
Basta que a porta da gaiola se abra para que voem.
Mais fundamental que o amor é a liberdade. A liberdade é o alimento do amor. 
O amor é pássaro que não vive em gaiola. Basta engaiolá-lo para que ele morra. 
Ter ciúme é reconhecer a liberdade do amor.
O desejo de liberdade é mais forte que a paixão. 
Pássaro, eu não amaria quem me cortasse as asas. 
Barco, eu não amaria quem me amarrasse no cais.

Refletindo...

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Se eu tivesse tomado um atalho, uma rua estreita qualquer, que tipo de pessoa eu teria me tornado?
Não sei, mas gostaria muito de saber.
Pelo retrovisor vejo todas as pessoas que eu poderia ter sido e não fui.

quinta-feira, 5 de abril de 2012

Pensamentos de Nietzsche

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Nunca é alto o preço a pagar
Pelo privilégio de pertencer
A si mesmo.

sábado, 24 de dezembro de 2011

A História de Natal

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O Natal mexe comigo, acredito que com a maioria de nós. É pra mexer mesmo que a gente inventa datas: pra comemorar o início de mais um ano, a alegria, a vida mais viva que morrida ou a passagem pela vida, o trabalho, a mãe e o pai, o amor e a criança, a pátria e a morte ou despedida, o nascimento.
Mesmo que Cristo não tenha nascido no dia 25 de dezembro ou se nem tivesse existido (seria o maior projeto de amor que o ser humano criou) e que a mídia e o comércio tentem encher todos os espaços com um cara vestido de garrafa de coca-cola, dando presentes caros para uns e paraguaios para outros, a lembrança presente da minha mãe prepondera: “quem traz presente é o Menino Jesus, foi Ele que nasceu e é Dele a festa.” Na pior das hipóteses, manda um anjo em seu lugar.
Gosto muito desta historinha, prefiro esta a qualquer outra invenção. Prefiro gostar de uma criança pobre, nascida como tantas outras e crucificadas como tantas outras, que não teria nada para me dar além de um sorriso, um olhar, um rosto dormindo para eu lembrar que o mundo é apenas isso. E, se eu for abençoada, não tem presente maior que o abraço de uma criança. Por isso, o maior presente que recebi em todos os tempos foi ser mãe. Como curti todo o tempo em que olhei, abracei, brinquei, rolei pelo chão, e até me aborreci com eles. Os momentos em que ficava na sala, ajoelhada pra ficar da mesma altura, e eles vinham correndo me abraçar. De quando estavam dormindo e eu ia acordá-los, cantando para Larissa que começava imediatamente a dançar em sua caminha, ou para o Bernardo que me abria um lindo sorriso e seus bracinhos para eu pegá-lo. Hoje, eu mais velha, eles já adultos, quando vou à nossa casa de Niterói, me deito na cama, eles ficam sentados conversando ao meu lado ou às vezes com os meus maiores concorrentes: o computador e a TV em seus quartos e eu ali, embolada com eles, às vezes pintando algum estresse quando não concordo com algo ou simplesmente falando um pouco da vida de cada um comigo. O mundo está todo ali: a filha, o filho e antes também a nossa cachorrinha shanna... Um lugar em paz.
Talvez eu goste dessa história do Menino de Belém porque nasci quase na roça. Uma casa simples, quintal sem fronteiras, ou facilmente transponíveis as fronteiras, galinhas correndo no quintal, muitas árvores, terra pra brincar. Os presentes de natal que ganhávamos eram tão simples que uma criança de hoje talvez falasse mal quem lhe oferecesse igual. Mas como éramos felizes com eles. Porque todos eram ricos de imaginação e de presença. Nossos pais não tinham a delicadeza que podem ter muitos de hoje, com seus eletrodomésticos a facilitar a vida. Tudo era difícil, manter uma casa com tantos filhos, sem luz elétrica, sem água encanada, com tão pouco dinheiro. Era até delicado se pensarmos no tamanho do "batente" que encaravam. Mas estavam sempre por perto. E a mãe cuidava da filha mais velha que cuidava do mais novo e assim por diante.
Quase não dou presentes no Natal, me recuso a ir ao shopping e não ligo a mínima se eles não me dão. Eu me contento com abraços e conversas simples. Já estou mais do que presenteada pelas boas lembranças, pelos encontros com anônimos de bom astral pela rua, pelo sol, pela chuva sempre bem vinda (mesmo quando eu falo mal), pela natureza que me cerca, por gostar de brincar com as palavras, pelos amigos com quem troco figurinhas aqui na internet ou nos encontros "reais", pelas músicas que chegam aos meus ouvidos, por tantas e tantas coisas que o espaço limita descrever.
Olha que presente: tenho à minha disposição, nesta cidade linda, um batalhão de pessoas trabalhando para o meu conforto: uma caseira, alguns vizinhos que estão sempre dispostos a ajudar no que precisar, cozinheiros dos restaurantes, garçons, carteiros, manicures, os trabalhadores do supermercado... Ganham pouco, vivem com dificuldades e são fundamentais para que eu seja feliz. Às vezes nascidos quase como o Menino da história, que só não ficou invisível como a maioria que trabalha pra mim porque uma estrela fez aquele estardalhaço... A estrela guia.
Não gosto de frases feitas, pomposas e vazias. Leio e escuto mil vezes: Feliz Natal e Próspero Ano Novo, repetido automaticamente. Perde o significado, a força da expressão ou do desejo que aparenta.
Prefiro desejar a cada amigo ou amiga coisas bem simples e possíveis. No Natal, por exemplo, que fique bem, que goste do lugar onde estiver que fique o mais sóbrio (a) possível pra curtir as presenças, que sinta momentos de paz, da vida que existe em gestos aparentemente banais como beber um copo com água, olhar pra alguém de fato (inclusive os invisíveis ou intocáveis), ouvir o outro, respirar profundamente, sentindo o sopro divino, fazer e receber um carinho.
Quando comer, que seja de forma não compulsiva, saboreando a rabanada, o figo, as castanhas... Se estiver trabalhando, que saiba o quanto seu trabalho é importante, que as festas acontecem porque você trabalha.
Lembre que nasceu e a qualidade do berço é o que menos importa. A trajetória é a mesma. Seus títulos e excelências ficam aqui, amarelados nas paredes. Todos somos criaturas simplesmente humanas, maravilhosamente divinas. Gente e bicho, inclusive os que nos chegam à mesa. Devíamos fazer como os índios do hemisfério norte: agradecer à vida que nos chega através dos alimentos, agradecer inclusive aos que se sacrificam por nós, com a própria vida como fez o Menino Deus.
Todos nascemos, inclusive as árvores e os minerais. É isso que devemos comemorar. Todos renascemos quando nossas atitudes nos trazem mais vida.
A noite de natal pode ser de paz se a gente estiver em paz, mesmo que num lugar bem simples como conta a história de Jesus, o Menino nascido no meio dos bichos.
Se não bastassem tantos ensinamentos contidos nessa história, o fato de nascer no meio dos bichos deveria ser lembrado nas igrejas e nas praças, num momento em que se questiona a relação com animais e crianças. Os bichos dividem conosco o mesmo planeta, a mesma casa para todos os seres vivos e minerais.
Jesus deve ter sido uma criança feliz, com todos aqueles bichos e espaços pra brincar. Mesmo que a história Dele não tenha relatos sobre isso, imagino. Acho que os amava tanto quanto Francisco de Assis, alguns séculos depois. E, posso afirmar, pois fantasiar foi outro dos grandes presentes que ganhei em todos os natais, nunca precisou levar pancada dos adultos para ser uma pessoa educada. Bichos que O acolheram, pais amorosos: percebeu que aquela história de fazer sacrifícios com animais estava ultrapassada e que o amor era um elo possível entre os humanos, sem discriminações. Levou tão a sério tudo que suas crenças O levaram à morte (bom, mas esse é outro capítulo).
É esta história bonitinha que gosto de lembrar, cheia de significados amorosos. Herança da minha mãe que me contou repetidas vezes.
Depois do nascimento e morte de Cristo, nasceram muitas religiões, que preferiram cultivar as culpas, o sofrimento, o paraíso distante, o dinheiro arrancado dos fiéis, o ouro, os tronos, o grande deus mercado e o individualismo, os papais Noéis da vida. Bichinho que gosta de inventar história... o ser humano. Umas deliciosas, outras terríveis.
Um natal simples, sem estardalhaços, como foi o nascimento mais festejado pela Humanidade. E nem precisa estrelas anunciando: está dentro de nós, o nascimento do próprio Jesus Cristo.
É o que desejo a todos vocês... Helena.

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Libertad






La libertad es tan cara que muchos prefieren
No pagar su precio y seguir siendo esclavos.

JJ.Sepúlveda

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

O Brasil de Todos Nós




Foi num dia 7 de setembro, no século XIX. A História encheu de magia o gesto espontâneo de um imperador amante do Brasil.

E Laços fora! E Independência ou morte! são frases repetidas, dramatizadas, recordadas a cada novo Sete de Setembro.

Desfiles militares, hasteamento da bandeira, execução do hino nacional se sucedem em rememoração à Independência do Brasil.

Olhando para as ruas do meu país, nesse festejar de 187 anos de independência, me surpreendo com os desejos de minha alma patriota.

Da alma que assiste o pavilhão nacional tremular ao vento, mostrando as cores vibrantes que falam de verdura, riqueza, um céu de estrelas, ordem e progresso.

Quero um país independente, uma nação livre. Livre da corrupção, da desonestidade e do compadrio.

Livre das drogas, das armas de guerra e dos discursos vazios, da violência de todas as cores.

Quero um país onde as crianças possam sair às ruas, para suas brincadeiras, sem medo de sequestros.

Possam ir à praia, ao campo, jogar futebol na quadra da esquina, sem que tenham de se esquivar de balas perdidas.

Eu quero um país onde se respeite o idoso, não porque ele não tenha a destreza da juventude, mas porque nele se reconheça a experiência dos anos vividos e das contribuições à sociedade por largos anos de trabalho.

Eu quero um país sem medo do amanhã. Um país que tenha os olhos no futuro e, por isso, invista na formação do cidadão.

Um país com escolas, bibliotecas e museus, franqueadas a todos.

Um país que preze seu passado e nunca esqueça dos seus heróis.

Dos heróis que defenderam suas fronteiras, com armas, com leis, com a vida e com a voz. Dos heróis de todos os dias, de todas as raças, que deixaram seu torrão natal e adotaram uma nova pátria.

Dos heróis que suaram sangue, trabalharam duro, desbravaram matas, criaram filhos.

Dos heróis que a História venera. Dos heróis que deram sua vida pelo ideal de uma nação sem escravidão. Uma nação de irmãos.

Eu quero um país responsável, onde os governantes sejam conscientes de seus deveres.

E onde o povo eleja seus representantes, não iludidos por promessas utópicas, mas porque conhecem a vida honrada do candidato e suas propostas maduras, coerentes, viáveis de aplicação a curto, médio e longo prazos.

Eu quero um país justo, que ampare a quem trabalhe, não àquele que somente sabe enumerar pretensos direitos.

Um país que proteja seus filhos, preserve suas riquezas, distribua seus bens.

Um país de paz. Um país de luz.

O país que eu quero não é irreal, nem impossível.

Ele somente depende de mim, de você, de cada um dos seus mais de 180 milhões de habitantes.

Pensemos nisso, hoje, agora, enquanto os versos do hino pátrio nos exortam a agradecer a Deus por um país tão vasto, tão rico, tão maravilhosamente pleno de belezas naturais e oportunidades de progresso.

sábado, 13 de agosto de 2011

No les dejo mi libertad, si no mis alas




Les dejo a mis hijos, no cien cosechas de trigo, si no un rincón en la montana, con tierra negra y fertil, un puñado de semillas y unas manos fuertes labradas en el barro y en el viento.
 No les dejo el fuego ya prendido, sino señalado el camino que lleva al bosque y el atajo a la mina de carbon. No les dejo el agua servida en los cantaros, sino un pozo de ladrillo, una laguna cercana y unas nubes que a veces llueven.
 No les dejo el refugio de un domingo en la iglesia, sino el vuelo de mis palomas y el derecho a buscar en el cielo, en los montes y en los rios abiertos.
 No les dejo la luz azulosa de una lampara de metal, sino un sol inmenso y una noche llena de mil luciernagas.
 No les dejo un mapa del mundo (ni siquiera un mapa del pueblo) sino el firmamento habitado por las estrellas y unas palmas verdes que miran a oriente.
 No les dejo un fusil con doce balas, sino un corazon amigo, que ademas del beso sabe gritar .
 No les dejo lo que pude encontrar, sino la ilusión de lo que siempre quise alcanzar .
 No les dejo escritas las protestas, sino escritas las heridas .
 No les dejo el amor entre las manos, sino una luna amarilla, que presencie como se hunde la piel en la piel, sobre un campo ,sobre un alma clara .
 No les dejo mi libertad sino mis alas.
 Y no les dejo mis versos ni mis canciones, sino una voz viva y fuerte que nunca nadie pueda callar.
Y que ellos escriban, ellos, sus versos, como los escribe la madrugada cuando se acaba la noche.
Que escriban ellos sus versos, por algo no les dejo mi libertad sino mis alas.